Vivendo a liturgia cristã, entrevista com Pe. Creômenes Tenório Maciel


Fé e devoção sempre fizeram parte da vida em família para o Pe. Creômenes Tenório Maciel (à esq.). Ele conta que ir à igreja e participar de novenas e procissões nunca foram um peso em sua vida. “Sempre era uma alegria, uma festa”, relembra o jesuíta, que mudou-se para Paris (França), em 2015, para fazer o mestrado, concluído em 2017, em Teologia Litúrgica e Sacramental, sobre a obra de inculturação litúrgica de padre Jacques Trudel, em Recife (PE). Morando ainda na capital francesa, Pe. Creômenes faz agora doutorado em Liturgia, sobre a interpretação das normas litúrgicas. Conheça um pouco mais da história desse jesuíta em sua entrevista ao informativo Em Companhia.

 

Conte-nos um pouco sobre sua história de vida.

Sou o mais novo de uma família de três filhos. Nasci em Recife (PE), mas cresci em Vitória de Santo Antão, município bastante próximo da capital – o que facilitava o acesso e contato com a parte mais desenvolvida de Pernambuco – mas também bem próximo do interior, o que dava um clima matuto e simples ao lugar. Além de ser um polo médico, industrial e comercial para todas as cidades do interior, o local é o principal produtor e catalizador do setor hortifrutigranjeiro da região, o que lhe confere peso político e econômico.

Meu pai tinha um restaurante e minha mãe, além de trabalhar com ele, tomava conta da filharada. Cresci num ambiente em que a família ultrapassa os limites da célula familiar: tios, primos, avós… todos são família na mesma intensidade. Em uma casa de cinco pessoas era comum que, à mesa, fôssemos 10 em cada refeição. Muitos de meus primos moraram na casa de meus pais para estudarem. Era uma casa em que nunca faltava gente! Amigos, parentes e aderentes entravam e saíam o tempo todo. A mesa sempre cheia, ambiente sempre festivo. A cozinha, que ocupava um terço do espaço da casa, era o coração da vida da família.

A escola ocupou uma parte considerável na minha vida e, até hoje, lembro com carinho dos professores e colegas. As relações de amizade com os amigos de infância da vizinha era algo muito importante. Brincar na rua ao chegar da escola era parte integrante do meu cotidiano. Cresci entre a escola e as brincadeiras de rua.

Outro polo importante dessa vida em família era a fé e a devoção. Ir à igreja, participar de novenas, terços, procissões, vias sacras etc., nunca foi um peso para mim. Sempre era uma alegria, uma festa. Seja como acólito, membro do grupo de jovens Libertação, participação na Juventude Operária Católica (JOC), equipe de pastoral litúrgica paroquial e arquidiocesana… Tudo isso construiu-me como pessoa.

O senhor é formado em Direito, pela Unicap (Universidade Católica de Pernambuco). Chegou a exercer a profissão?

Sim, trabalhei como advogado por três anos antes de entrar para a Companhia de Jesus. Tempo forte de aprendizado diante de desafios e conflitos.

Foi nesse tempo que conheceu a Companhia de Jesus?

Conheci a Companhia durante meus estudos de Direito na Unicap, onde eu participava da missa diariamente e tinha contato direto com alguns jesuítas, como os padres Jacques Trudel e Antônio Mota. Em Trudel, encontrei um modo concreto, missionário e frutuoso de viver a liturgia cristã. Foi Mota quem me introduziu na escola de oração dos Exercícios Espirituais e o primeiro jesuíta com quem falei sobre vocação. Para mim, são duas referências importantes dentro da Companhia de Jesus.

“[…] meu trabalho pode contribuir para desmitificar o legalismo que rodeia a liturgia e dar espaço para uma verdadeira interação entre fé e vida nas nossas celebrações […]”

Por que viver o chamado na vida religiosa, sendo jesuíta?

Viver o chamado é uma questão de encontros de desejos que nos realizam como ser humano. Na Companhia de Jesus, eu encontrei o melhor lugar para eu viver o chamado de Deus. Foi abraçando este corpo apostólico, que, para mim, é como o corpo de Cristo ressuscitado, mas que sempre carrega as chagas da paixão, que eu pude viver a desenvolver a graça do Espírito Santo, que me foi dada desde meu batismo: fazer a vontade do Pai, amando e servindo aos irmãos. Sem dúvida, a Companhia de Jesus é o melhor lugar para mim, pois sinto-me plenamente integrado à Igreja e a serviço da humanidade.

O senhor está cursando o seu doutorado em Liturgia, em Paris (França), tendo em vista a missão futura. Há quanto tempo o senhor está na França?

Esta é a segunda vez que moro na França. Estou aqui desde 2015. Primeiro, foi para fazer o mestrado, que terminei em 2017. Agora, o doutorado. Assim, tenho um bom pedaço de estrada pela frente. Mas não vejo a hora de terminar e voltar para a missão no Brasil.

O senhor será professor de Liturgia?

Fiz um mestrado em Teologia Litúrgica e Sacramental, sobre a obra de inculturação litúrgica realizada pelo padre jesuíta Jacques Trudel, em Recife (PE). Agora, estou fazendo um doutorado em Liturgia, sobre a interpretação das normas litúrgicas. A princípio, o horizonte é a docência, mas um jesuíta deve sempre estar aberto aos apelos do Cristo, da Igreja, da humanidade. As exigências da missão podem me levar para outra dimensão apostólica e isso não depende só de mim ou de meus estudos. Tem todo um processo de discernimento envolvido.

Com quais novidades ou propostas sua pesquisa no doutorado pode colaborar para uma “Igreja em saída”, como pede o Papa?

Minha pesquisa busca jogar novas luzes sobre a maneira que lemos e compreendemos a estrutura jurídica da liturgia católica. Se colocamos esse tipo de trabalho diante do apelo do Santo Padre para uma “Igreja em saída”, eu acredito que meu trabalho pode contribuir para desmitificar o legalismo que rodeia a liturgia e dar espaço para uma verdadeira interação entre fé e vida nas nossas celebrações, sem, no entanto, desprezar a tradição bimilenar da Igreja, tampouco a cultura local do povo que celebra. Para mim, uma saída se encontra na profunda compreensão da densidade teológica de nossa liturgia celebrada no hoje das igrejas em cada canto do mundo. Parafraseando o Papa, eu diria que uma liturgia em saída é uma liturgia que não tem medo de anunciar e celebrar a fé segundo a história e a cultura humana, de ontem e de hoje. Não acho que isso seja uma “novidade”, mas tenho a firme convicção de que é algo que precisa ser dito com perseverança e esperança, para que “venha a nós o Teu reino e seja feita a Tua vontade”.

Essa entrevista foi publicada na 50ª Edição do informativo Em Companhia (Nov./Dez. 2018). Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!