Em luta pela igualdade social e econômica com Pe. José Odelso Schneider

Conheça um pouco mais da história desse jesuíta

Doutor em Ciências Sociais pela Facoltà di Scienze Sociali da Pontifícia Università Gregoriana de Roma (Itália), padre José Odelso Schneider começou a se interessar pelo cooperativismo ainda nos tempos de mestrado, realizado no Instituto Latinoamericano de Doctrina y Estudios Sociales (ILADES), em Santiago (Chile). Conheça um pouco mais da história desse jesuíta em sua entrevista ao informativo Em Companhia.

 

Conte-nos um pouco sobre sua história de vida.

Nasci em São Pedro da Serra, distante uns 80 km de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Meu pai era um pequeno comerciante, com uma saúde muito precária. Ele teve tifo, fez três cirurgias para extrair pedras da bexiga, tinha dores constantes… e faleceu após 24 anos de cama, o que angustiava a ele e a própria família. Minha mãe sempre presente e ao lado dele… Ele faleceu aos 66 anos e ela, aos 83. Dois anos após a morte do pai, faleceu o meu irmão primogênito em acidente de carro. E uns 12 após, igualmente em acidente, morreu o único filho homem desse meu irmão. Sou de uma família de seis irmãos, entre os quais, duas mulheres.

Eu, aos 11 anos, em 1949,  parti para o Seminário – Escola Apostólica de Salvador do Sul (RS), onde permaneci durante nove anos, até concluir o Ensino Médio. Logo depois, em 1958, ingressei no noviciado de Pareci Novo (RS). Sempre passei as férias escolares no ambiente da minha família. A Escola foi uma época de muito crescimento e bons professores e educadores. Quando conclui os dois anos de Noviciado, minha turma vivenciou a extinção de dois anos de Juniorado. Por isso, logo após os primeiros votos, partimos diretamente para o  primeiro ano de Filosofia nas Faculdades de Cristo Rei – São Leopoldo (RS), que contou com mais de 40 alunos. Fomos a primeira turma a ter um professor leigo de Filosofia, Gerd Bonrmheim, que pertencia ao quadro de professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Como o senhor conheceu a Companhia de Jesus? Por que decidiu ser jesuíta?

Aos 10 e 11 anos, fui trabalhar na Casa Canônica de Alto Feliz (RS), composta por dois padres e dois irmãos jesuítas. Além do mais, me relacionava, de quando em quando, com um tio que era padre e jesuíta, padre Emílio Schneider. Este, junto com outros dois jesuítas da antiga Província do Brasil Meridional, além de vários outros, foi capelão da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que acompanhou os 25 mil soldados brasileiros para a Segunda Guerra Mundial, com área de atuação no centro e no norte da Itália. Permaneceram nessa condição de capelães por uns três anos. Durante a guerra, o padre Emílio enviou-nos duas cartas relatando as peripécias da guerra, que, na minha família, se lia e relia. Partiu para a guerra com cabelos castanhos e pretos, e retornou dela  com cabelos completamente brancos.

 

Durante sua formação como jesuíta, quais experiências marcantes o senhor vivenciou?

Praticamente, todas as atividades realizadas com o meu envolvimento direto, quase sempre, tive a fraterna ajuda, apoio e estímulo dos superiores e colegas jesuítas. Isso, posso dizer, tanto no tempo da Filosofia no Cristo Rei quanto depois, nos quatro anos de estudo de Sociologia e Política, numa das melhores escolas da época, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tendo como líderes da instituição os padres Fernando Bastos de Ávila e Ozanam de Andrade, e renomados(as) e competentes professores(ras) leigos(as).

 

O que o motivou para fazer o doutorado em Ciências Sociais e como isso colaborou para o seu trabalho na Companhia?

Foi o estímulo e apoio do então Prefeito dos Estudos da Província, padre Teobaldo Frantz, que sugeriu, a mim e ao padre Martinho Lenz, de nos inscrever no curso da PUC-Rio. Para a concretização desse curso de Sociologia e Política, ficamos hospedados durante quatro anos no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro (RJ). Como professores leigos renomados, tivermos: o antropólogo Raul Hehl Neiva; como autoridade em História Social do Brasil, especialmente em Realidade da Amazônia, o Prof. Arthur César Ferreira Reis, que o presidente Castelo Branco nomeou depois  como governador do Amazonas.

Logo após concluir esse período, fui destinado para o mestrado em Ciências Sociais no Instituto Latinoamericano de Doctrina y Estudios Sociales (ILADES), em Santiago (Chile), onde permaneci por três anos. No ILADES, fui professor complementar de Sociologia para alguns alunos bolsistas que tinham mais dificuldade na área de Ciências Sociais. Cursei o doutorado entre o início de 1988 até o final de 1990, na Facoltà di Scienze Sociali da Pontifícia Università Gregoriana de Roma (Itália).  

 

O senhor também tem anos de experiência com cooperativas. Conte-nos um pouco sobre a importância desse trabalho.

Comecei a interessar-me pelo cooperativismo ao cursar o ILADES, onde tive, como professor, Dieter Benecke, contratado em convênio entre a Universidade Católica do Chile e a Universidade de Münster (Alemanha). Benecke instaurou um Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Cooperativismo na Católica do Chile. Posteriormente, essa iniciativa, com o acompanhamento de Benecke, foi multiplicada nas Universidades Católicas de Lima (Peru), Quito (Equador) e Bogotá (Colômbia). As empresas capitalistas, em sua quase totalidade, beneficiam enormemente a uns poucos e jogam a maioria na desigualdade, no individualismo, na pobreza. As cooperativas, ao contrário, se estruturam tendo por base o processo da cooperação, complementada pela autoajuda e reforçada pela ajuda mútua, num permanente clima de solidariedade e reciprocidade. Têm como objetivo fundamental prestar serviços de forma eficiente aos associados, para suprir e superar suas necessidades e, assim, promover o seu bem-estar material e social, e mais igualdade econômica e social.

O Brasil conta com milhões  de micro, pequenas, médias e grandes empresas capitalistas, que empregam alguns milhões de brasileiros. Porém os benefícios que geram vão se afunilando e concentrando lentamente nas mãos de poucos. Ao contrário, as cooperativas, como empresas, quase desaparecem no quadro geral empresarial, pois contamos com apenas umas 7.000 cooperativas. Entretanto, como cada cooperativa abraça a milhares de associados, elas hoje beneficiam mais de 14 milhões de brasileiros associados. Se cada um deles é responsável, em média, por quatro pessoas, temos, atualmente, 56 milhões (27%) de brasileiros beneficiados, de uma forma ou outra,  pelos serviços das cooperativas, ou seja, mais de um em cada quatro brasileiros.

 

Como a filosofia do cooperativismo se relaciona com a Companhia de Jesus?

Na então Província do Brasil Meridional, tivemos, nas primeiras décadas do  século XX, alguns jesuítas de renome envolvidos com cooperativas. A saber, por exemplo, o padre suíço Teodor Amstad, que fundou, em Linha Imperial de Nova Petrópolis (RS), a primeira cooperativa de crédito do Brasil e da América Latina, em 28 de novembro de 1902. Igualmente, o padre João Batista Rick, militando na Sociedade União Popular, junto com outros padres, e, nas décadas de 50 e 60 do século XX, os padres João Batista Sehnem e Berwanger, acompanhavam e apoiavam as cooperativas existentes junto às colônias  recém-criadas em Cerro Largo (RS), Santo Cristo (RS) e Itapiranga (SC), além do apoio aos colonos migrantes na Província de Misiones/Argentina (Capiovi, Puerto Rico e San Alberto).

 

Além do cooperativismo, o senhor acompanha os Círculos Operários. Como os Círculos Operários podem colaborar para a construção de uma sociedade mais humana, sem ódio, respeitando as diferenças?

O Circulismo, com algumas honrosas situações, vive uma situação de perda de valores,  de individualismo, de oportunismo, em que poucas pessoas circulistas se apresentam para dinamizar, atualizar, modernizar o Circulismo nas cidades onde ainda existe. Atualmente, em especial aqueles que têm algum dinamismo, algum espírito de luta, veem o Círculo como uma instância de apoio e acompanhamento das pessoas idosas, ou da terceira idade. Segundo a Federação de Trabalhadores Cristãos do Estado de São Paulo (FETCESP), informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em  2018, há 29,6 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil e que a expectativa de vida tenderá logo a chegar a 80 anos. Portanto, esse público está sendo visto como quem vê no CIRCULISMO uma entidade de apoio, de estímulo, de mobilização circulista dessa faixa de população.

 

Essa entrevista foi publicada na 55ª Edição do informativo Em Companhia. Quer ler a edição completa? Então, clique aqui!